O Violinista que Mudou Portugal
Relvas tocava violino e organizava saraus culturais em casa.
Uma casa · Uma história · Uma maravilha
Um tesouro português no Ribatejo
A casa de José Relvas, em Alpiarça, onde a arte de quatro continentes habita as paredes que Raul Lino desenhou.
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O Homem
A história de Portugal está povoada de heróis que o tempo deixou na penumbra. José Relvas não deveria ser um deles.
Foi ele que, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, proclamou a República a 5 de outubro de 1910. Ministro das Finanças do Governo Provisório, dotou o país de uma nova moeda, o escudo. Foi embaixador em Madrid, Chefe de Governo e Ministro do Interior. Mas para além da política, foi lavrador, músico de alma, mecenas e um dos maiores colecionadores de arte de Portugal.
E quando chegou a hora de decidir o destino da sua vida e da sua casa, José Relvas não pensou em si, nem na família. Pensou no povo de Alpiarça. Legou-lhe tudo, sob uma única condição: que a casa permanecesse aberta, para que todos pudessem contemplar aquilo que reuniu ao longo de uma vida inteira.
Mais do que filantropia, foi um gesto de amor a Portugal.
O átrio de entrada, tal como José Relvas o concebeu.
Relvas tocava violino e organizava saraus culturais em casa.
Enquanto Ministro das Finanças, instaurou o escudo em substituição do real.
No testamento, pediu flores frescas para sempre. Mais de 90 anos depois, são renovadas.
Calendário de mogno e prata imobilizado no dia 31 de outubro de 1929.
O piano do filho, Carlos Relvas, pianista profissional falecido antes do pai, nunca mais foi tocado por vontade testamentária.
Sem descendentes, legou a quinta ao povo de Alpiarça.
A origem do nome
O nome engana quem o ouve pela primeira vez. Nada tem que ver com cães: a Quinta dos Patudos deve a sua designação aos inúmeros patos que outrora povoavam os seus tanques e campos alagados.
Um pormenor aparentemente menor que revela a natureza deste lugar: uma casa onde cada detalhe encerra uma história inesperada, da paisagem ribatejana à coleção que hoje acolhe.
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A Arquitectura
Em 1904, José Relvas confiou a Raul Lino, mestre da chamada «Casa Portuguesa», a construção da Casa dos Patudos. Concluída em 1909, a casa é hoje um dos exemplares mais singulares da arquitetura nacional. Na Casa dos Patudos, grande parte do mobiliário e da azulejaria foram concebidos e integrados no projeto original da casa. Nada foi deixado ao acaso: cada peça, cada painel de azulejos e cada detalhe decorativo foram pensados para o espaço que ocupam, contribuindo para a harmonia e singularidade deste conjunto arquitetónico.
A Coleção
Oito mil peças. O número, por si só, mal traduz aquilo que José Relvas reuniu ao longo de uma vida de viagens, amizades e devoção pela arte.
A coleção atravessa o tempo, da Idade Média ao início do século XX, e percorre o mundo. Pintura portuguesa de Silva Porto, Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Constantino Fernandes, Carlos Reis, Adriano de Sousa Lopes e Josefa de Óbidos. Obras de escolas espanholas, flamengas, francesas, italianas, alemãs e neerlandesas. Porcelanas de Sèvres e de Saxe. Peças da Companhia das Índias. Azulejaria, bronzes, têxteis e cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro.
Um interior onde a pintura e o azulejo convivem.
Uma das maiores coleções do país, com exemplares raros.
Em 1988, a casa foi assaltada. 8 anos depois, um Rembrandt foi recuperado pela polícia italiana perto de uma igreja em Milão.
Flores frescas, calendário parado, objetos no lugar. Não é uma reconstituição. É a continuação de uma vida.
Ao centro, do lado direito, ergue-se a Pianola, um piano com a singularidade de tocar sozinho. Ao fundo, um armário guarda os rolos musicais, fitas com as notas gravadas em relevo que, ao serem introduzidas no instrumento, lhe davam voz. Entre a Pianola e esse armário, na parede, repousa o retrato de Domenico Scarlatti, único retrato que se conhece no mundo.
À esquerda, numa vitrine, encontra-se a réplica da Jarra Beethoven. A obra original, com cerca de 2,3 metros de altura, é a maior peça de faiança que Rafael Bordalo Pinheiro produziu, em homenagem à música e ao grande compositor, e encontra-se hoje no Brasil. A réplica foi oferecida a José Relvas pelo próprio Bordalo Pinheiro, seu amigo próximo e frequentador assíduo da casa.
Era, na verdade, o escritório de José Relvas, embora ele nunca o quisesse chamar assim, preferindo o nome de biblioteca. É aqui que, sobre as secretárias, se mantêm as jarras que, por sua vontade, hão de ter sempre flores frescas e naturais.
As secretárias eram duas: a de José Relvas e a do filho, Carlos Relvas. Em ambas, os calendários permanecem detidos na data exata das suas mortes, marcando para sempre o dia e o ano em que cada um partiu.
É o coração social da casa. Sob um imponente lustre de cristal, a grande mesa estende-se ladeada por vitrines que guardam porcelanas e faianças, enquanto tapeçarias e pintura europeia revestem as paredes.
À direita encontra-se o piano que nunca mais foi tocado, e junto dele o retrato do filho, Carlos Relvas. Por vontade do patrono, estes dois elementos hão de permanecer sempre lado a lado.
Obras emblemáticas
Cada peça da Casa dos Patudos guarda uma narrativa. Estas três falam por si.
José Malhoa · 1904
O nome intriga à primeira vista. Kaiser evoca a realeza europeia, talvez o imperador alemão. A verdade, porém, é bem mais íntima e comovente: Kaiser era o cão de estimação da família Relvas.
José Malhoa pintou o retrato do cão da família como forma de agradecimento às diversas vezes que permanecia na Casa. O mesmo pintor que nos deu «O Fado». A obra, óleo sobre tela, foi pintada em 1904, no ano em que a construção da casa teve início.
Ficha técnica: Cabeça de Cão (Kaiser) · Óleo sobre tela · José Malhoa · 1904 · Coleção Casa dos Patudos
Constantino Fernandes
De todas as obras que José Relvas reuniu ao longo da vida, havia uma que não podia estar longe de si. «Abandonadas», de Constantino Fernandes, era o seu quadro favorito. Pediu que ficasse na Biblioteca, o mesmo espaço onde o calendário de mogno e prata parou no dia da sua morte, em 31 de outubro de 1929.
A tela de grandes dimensões (1,67 × 1,78 metros) está ainda hoje onde José Relvas a colocou. Não foi movida. Não foi reposicionada.
Ficha técnica: Abandonadas · Óleo sobre tela · 1670 × 1775 mm · Constantino Fernandes · Biblioteca
Rafael Bordalo Pinheiro · 1895
No final do século XIX, José Relvas fez uma encomenda invulgar ao seu amigo Rafael Bordalo Pinheiro: queria uma peça que fosse um hino a Beethoven. O resultado foi uma jarra de barro vidrado com 2,30 metros de altura.
Está repleta de detalhes musicais: folhas de partitura com as primeiras notas do Quarteto opus 18 n.º 4, quatro músicos empoleirados numa curva da peça, um medalhão com o retrato de Beethoven guardado por uma grande águia, e nas bases as palavras «Melodia» e «Harmonia».
«Effectivamente é a obra mais completa que tenho feito.»Rafael Bordalo Pinheiro, agosto de 1895
Por ser uma peça demasiado grande, Bordalo Pinheiro ofereceu a José Relvas a réplica da Jarra.
Ficha técnica: Jarra Beethoven · Barro vidrado · 2,30 m · Rafael Bordalo Pinheiro · 1895 · Sala da Música
Uma causa nacional
A Casa dos Patudos não preserva apenas a memória de uma família abastada. Guarda o legado de um homem que ajudou a moldar o país: aquele que proclamou a República, que dotou Portugal de uma moeda e que, entre concertos e tertúlias, sonhava com uma nação mais culta. Acima de tudo, teve a generosidade de compreender que o que reunira pertencia, por direito, a todos.
Votar na Casa dos Patudos é mais do que distinguir um museu. É afirmar que Portugal sabe cuidar do seu passado, honrar quem o engrandeceu e reconhecer a beleza onde quer que ela floresça.
Há lugares cuja grandeza não se mede pelo tamanho, mas pela história que guardam. Este é um deles.
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